Árvores venceram a corrida da evolução porque foram as que melhor se adaptaram à seca

Árvores venceram a corrida da evolução porque foram as que melhor se adaptaram à seca

Investigação internacional demonstra que a seca desempenhou um papel fundamental na adaptação das árvores às mudanças climáticas.

Um Olhar Europeu com Ceska Televize / Adicionar como fonte informativa
Durante uma onda de calor em Toulouse, a 23 de junho de 2026, o termómetro na árvore marca 35,8 graus. Ed Jones / AFP



Um importante projeto de investigação internacional, que contou com a participação de especialistas da Chéquia, procurou responder à questão de como as árvores surgiram e o que lhes permitiu tornarem-se dos organismos maiores e mais longevos da Terra.

As árvores existem há milhões de anos; são dadas como garantidas e, geralmente, não lhes prestamos muita atenção. No entanto, possuem qualidades extraordinárias: não só são os maiores organismos que alguma vez viveram na Terra, como também detêm o recorde absoluto de longevidade. 

Como é que estas plantas em particular tiveram tamanho sucesso?

De acordo com um novo estudo, a seca desempenhou um papel fundamental neste processo. As árvores "superaram" os seus concorrentes do reino vegetal ao crescerem acima deles — e quanto mais alto cresciam, mais conseguiam aproveitar os raios solares para a fotossíntese, obtendo assim mais energia do que os seus concorrentes evolutivos, tais como as equisetas e os licopódios.

No entanto, todas as plantas que tentaram este "artifício" evolutivo devem ter-se deparado com o mesmo problema. E esse problema era a água. Os bombeiros de agora enfrentam o mesmo problema quando combatem incêndios em edifícios altos — bombear água para cima é extremamente dispendioso em termos energéticos. E as árvores pré-históricas enfrentavam o mesmo desafio.O fluxo contínuo de água através da árvore
Para que as árvores cresçam para cima, têm de transportar continuamente água das raízes para o tronco, os ramos e as folhas. No entanto, à medida que crescem, este processo torna-se cada vez mais difícil, especialmente durante períodos de escassez de água. O transporte de água é realizado por um tecido vascular chamado xilema, que consiste em tubos microscópicos. No entanto, estes podem ficar obstruídos por bolhas de ar, conhecidas como embolias. 

Se este dano alastrar, pode interromper o abastecimento de água e provocar a morte de toda a planta. À medida que os sistemas de condução de água das plantas se tornaram maiores ao longo da evolução, também aumentou a sua vulnerabilidade a estas perturbações.

A investigação sugere que as plantas arbóreas resolveram este problema dividindo gradualmente os seus sistemas vasculares em partes separadas, limitando assim a propagação dos danos. A mesma estratégia tem-se repetido ao longo da evolução das plantas arbóreas.

"Em linhagens evolutivas há muito extintas, as vias condutoras estavam fisicamente separadas em diferentes partes do tronco, embora isso, por sua vez, acarretasse desvantagens estruturais. Os antepassados das árvores atuais desenvolveram uma solução elegante para o problema — uma estrutura interna mais complexa da madeira, que ajuda a lidar com os efeitos da seca, mantendo simultaneamente a resistência do tronco. Esta visão mais aprofundada da evolução ajuda-nos a compreender as propriedades funcionais da madeira nas árvores atuais, que voltam a enfrentar elevadas taxas de mortalidade devido à seca", afirma Martin Bouda, do Instituto de Botânica da Academia Checa de Ciências, que participou na investigação.

A capacidade de limitar estruturalmente a propagação dos danos nos tecidos vasculares permite que as árvores resistam melhor ao stress, regenerem as partes danificadas, se adaptem às condições ambientais em mudança e atinjam uma idade excecionalmente avançada. 

A investigação sobre os mecanismos através dos quais as árvores gerem a água pode ajudar a prever como as florestas irão responder às alterações climáticas em curso. 

"A pressão evolutiva da seca, que moldou as primeiras florestas, também afeta os ecossistemas florestais atuais", acrescenta Alexandru Tomescu, da Universidade Politécnica Humboldt da Califórnia, que também colaborou no estudo.

Tomás Karlík / 23 junho 2026 08:54 GMT+1

Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa - RTP
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